O que aprendi ao virar uma celebridade fitness

Não parece mas o assunto também é câncer. E é um tema complicado, muitas vezes as pessoas nem gostam de usar “essa” palavra. Parece que quando a gente fala no diabo ele logo bate à nossa porta. Mas esse não é o caso. Falar sobre câncer ajuda a prevenir muitos casos. Pelo menos é o que a gente espera né.

Então passei a falar de câncer no Instagram!

Pareceu uma boa ideia, juro.

Ode ao otimismo: tava dando certo

E de um dia para o outro o número de seguidores começou a crescer muito rapidamente, coisa boa. E eles eram interessantes, pelo menos suas fotos eram. Gente que é amador profissional com quem poderia aprender, afinal pareciam fazer triatlo como quem joga pelada de final de semana no campinho. Gente de países onde o esporte é “sério”. Gostei.

E a cada dia mais gente. Tava dando certo.

E quando eu estava me sentido Mirna Valério da relevância fitness recebi uma mensagem no meu inbox de uma atleta do outro lado do mundo (!!!) me abençoando (o que agradeci porque sou dessas) e me desejando boa sorte. Quando percebi a treta já era tarde. As pessoas estavam achando que eu estava doente (e ia morrer) e passaram a acompanhar minha “estória” de “superação”.

Então tive de explicar que tive câncer há uma década e hoje tento ter algum cuidado na vida como qualquer outro humano deveria, apesar de bipolar e etc. E foi assim que o número de seguidores caiu mais que luz em buraco obscuro e Coiote no desenho do Papa-léguas. Minha imagem só era bacana enquanto havia sofrimento envolvido, talvez se eu quisesse emagrecer publicamente…

Afinal quem quer ouvir uma mulher preta, ativista, gorda e de meia idade ao sul do equador sem equipe de apoio ou equipamentos que quer fazer um triatlo mas não está morrendo, não é mesmo? Logo no Brasil? Lascou-se!

Senta que essa é a parte da problemática: o estranho caso de Paulette Leaphart 

E de um jeito muito louco percebi que não “basta” querer ser triatleta. Só seria legal se estivesse enfrentrando a mortalidade durante o processo. E quem disse que não estamos não é? Mas só serve se for visível a todo tempo, a cada parágrafo, cada foto e com uma hashtag bem colocada. Canfa (essa é uma referência antiga, mas você entendeu).

O que me lembrou o estranho caso de Paulette Leaphart, uma mulher negra que mostrou ao mundo sua dupla mastectomia para conscientizar pessoas. Sua imagem é tão poderosa que, apesar de toda e qualquer controvérsia, mudou o modo como parte dos Estados Unidos encaram o câncer, muito mais que Angelina Jolie.

Dizem que a “doença” faz as pessoas mais solidárias, mas não foi esse caso. Ao ganhar visibilidade, Leaphart passou a ser atacada depois que uma repórter da CNN fez o escrutínio de sua história. Sua imagem foi classificada como apelo midiático, sendo acusada por que seu tumor não foi tão grande e grave assim. Nem mesmo uma dupla mastectomia servia.

Nesse caso o problema é que havia poder demais envolvido.

Ao dizerem que sua estória “era boa demais pra ser verdade” talvez estivessem dizendo que “era verdade demais para ser boa”. As pessoas querem consumir sofrimento que aflore sentimentos de caridade e assistencialismo mas não façam encarar a realidade, como ver um grupo de mulheres negras mostrando suas cicatrizes ao lado de Leaphart.

Nesse sentido, uma mulher negra que “supera” o câncer e a bipolaridade ao tentar fazer um triatlo (enquanto todos supõem que vai fracassar) é palatável e compreensível, faz sentido e é desejável. Pode ser mastigada como pura e simples superação. E por isso chamou a atenção até de gente do outro lado do mundo.

A minha imagem faria sentido se eu morresse tentando, destinada ao fracasso ou descanso eterno, deus nos proteja. E nem deu tempo de receber “recebidos” tão breve foi minha vida de “celebridade fitness internacional” no Instagram, ao usar a hashtag #fodaseocancer nas minhas postagens por um punhado de dias.

E me pergunto porque não basta querer fazer um triatlo. Ou desejar qualquer coisa até o coração bater forte mais que tambor só porque deu vontade. Será que a gente que é preto precisa morrer pra inspirar as pessoas?

Será que vivo serve?

Já sabemos a resposta.

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