Bulimia e Compulsão alimentar na quarentena, vamos falar serião

Bulimia e Compulsão alimentar na quarentena, porque deveríamos falar sobre isso agora?

Esse é mais uma daqueles assuntos que não tem sido abordados pelos jornais e canais que estão discutindo saúde durante a pandemia. Por isso decidi falar sobre isso depois de receber uma mensagem de grupo onde uma mulher reclamava de “já ter comido todo o estoque de comida” que havia feito para passar pela pandemia.

Isso me chamou muito à atenção. Como as mulheres com transtorno alimentar estão passando a quarentena? Afinal, como fica a relação com a comida nos prolongados dias de isolamento quando para muitos “a fome se espalha mais rápido que o vírus”?

É sobre bulimia e compulsão alimentar na quarentena

Em primeiro lugar, escrevo pensando especificamente sobre a bulimia e compulsão alimentar, dois assuntos que conheço de muito perto. Que assombrado como uma fantasma de natais passados agora que completo quase um mês de quarentena. É como batessem à porta dizendo “estamos aqui, precisa lidar com isso”. 

Assim, quero salientar que esse texto é feito para mulheres de todos os tipos de corpo, de todas as idades, especialmente para aquelas que convivem ou já conviveram com transtornos alimentares. Para quem é mãe. E não necessariamente gordas ou magras. Mulheres com bulimia e compulsão alimentar podem ser inclusive atléticas. Não é sobre peso, é sobre a relação com a comida.

Mas também é sobre a pandemia

Essa semana o governo federal anunciou finalmente a Renda Básica para auxiliar cidadãos durante a quarentena. Esse é um programa essecial, agora que as pessoas sequer podem ir às ruas para ganhar o seu do dia. Esse é o contexto do brasileiro quando falamos em comida, a insegurança alimentar. O que demanda muito mais que uma ajuda emergencial, embora ele seja necessária e benvinda.

“A cidade de São Paulo tem cerca de 618 mil famílias em situação de extrema pobreza (que vivem com menos de um quarto de salário mínimo), segundo dados mais recentes, de 2018.”

“A fome se espalhou antes que o coronavírus pela periferia de São Paulo. Crianças acostumadas com até cinco refeições por dia na escola —hoje paralisadas devido à quarentena— têm dietas pobres que podem se resumir a arroz puro.”

E porque falar de bulimia e compulsão alimentar na quarentena, num cenário tão desafiador? Em 2017, 2,5% da população passou fome, atingindo mais de 5 milhões de pessoas. Uma tragédia que não comoveu a ninguém. Com a pandemia, esse cenário será ainda pior e, além das mortes por desnutrição, poderemos enfrentar um efeito colateral que talvez continue invisível quando se fala de insegurança alimentar: os transtornos alimentares como bulimia e compulsão alimentar.

O outro lado da moeda

Um dos efeitos da insegurança alimentar acontece quando ela é superada, mas seus efeitos psicológicos são sentidos ao longo do tempo. Estou falando de algo que é muito sensível e nem sempre percebido. Costumo chamar esse fenômeno de “geladeira cheia”, quando é desenvolvida uma relação de medo para com a comida. Muitas vezes atravessando gerações, é instalado um anseio crônico motivado por questões reais ou imaginadas de que não haja o que se comer amanhã. E daí, mesmo que não haja de fato necessidade, a comida é estocada e pode inclusive chegar a estragar.

Embora isso não caracterize transtornos alimentares como a bulimia e a compulsão alimentar, esse é um pano de fundo que pode agravar ou até mesmo ser um importante gatilho para esses transtornos. Isso porque configura um desvio no que se imagina ou se entende como uma relação desejável com a comida que pode ser muitas coisas e tudo aquilo que você quiser, menos uma relação de medo.

Quando nossos estômagos estão cheios temos medo da indigestão
Quando nossos estômagos estão vazios temos medo que talvez nunca mais comamos
Quando nós amamos temos medoque o amor desaparecerá
Quando estamos sós temos medo que o amor jamais voltará

audre lorde

Bulimia e compulsão alimentar na quarentena, como lidar?

E enquanto as políticas públicas não se desenham, precisamos lidar com o problema. As recomendações que faço aqui são fruto de meu aprendizado com o tema, pois sofri com a bulimia nervosa e agora a compulsão alimentar me persegue durante a quarentena. E por entender o sofrimento envolvido, mesmo que essas não sejam universais, quero compartilhar com vocês um pouco do que aprendi estou fazendo.

1. Converse abertamente sobre o transtorno

Uma das coisas mais desagradáveis de se conviver com transtornos alimentares como a bulimia e compulsão alimentar na quarentena e fora dela é o segredo. Tudo o que se quer é ficar em privacidade, seja para comer compulsivamente, seja para expurgar o que se comeu. Por outro lado, é esperado que as pessoas à volta se preocupem com isso, assumindo uma postura de cuidado que nem sempre é compreeendida por quem tem o transtorno.

Então agora que estamos todos isolados, se esconder é uma fonte incomensurável de ansiedade. A única saída é que todos conversem à respeito, se houver espaço. A pandemia e a incerteza sobre o futuro podem causar depressão, transtornos de ansiedade e fobias, o que por sua vez são gatilhos para transtornos alimentares.

Vá até onde for possível para você e para quem te ouve. Mas seja assertiva em comunicar que o melhor é o diálogo para todas as partes.

2. Se acontecer, não sinta culpa

Os transtornos alimentares costumam ser acompanhados de um imenso sentimento de culpa. É como se houvéssemos falhado, em alcançar um padrão estético que é inatingível ou como pessoas. Se acontecer algum episódio, não se culpe. Estamos em quarentena e isso precisa ser levado em conta.

Preste atenção em como está seu corpo, se sente dores de garganta ou dor abdominal que são causados pela bulimia, por exemplo. Até mesmo para conseguir comunicar aos demais se ela está relacionada ou não aos sintomas do vírus.

3. Não comece um regime durante quarentena

Um dos sintomas de transtornos como bulimia por exemplo é uma alimentação insuficiente, causando baixa imunidade, cansaço crônico. Assim, muitas sentem a necessidade de “resolver” as coisas começando um regime, na grande maioria das vezes restritivos. Não é hora de pensar nisso, a menos que você tenha acompanhamento multidisciplinar com apoio psicológico e nutricional. Jejum intermitente? Nem pensar. Não combina com compulsão alimentar, muito menos com quarentena.

4. Deixe a balança pra lá

Abandonar a necessidade de se pesar todo dia, muitas vezes mais de uma vez ao dia é um desafio. Mas você só tem a ganhar com isso. Então, não busque alívio para a ansiedade da quarentena nos números da balança. Tentar emagrecer na quarentena é o tipo de coisa que você não deve fazer sozinha. Só emagreça se houver ordens médicas para isso.

5. Procure fazer as refeições em família, se possível

Um dos pontos entre quem tem bulimia e compulsão alimentar é a necessidade de se isolar, esconder, na hora da refeição. Entretanto, tente fazer diferente. Comer ao lado de quem a gentge ama pode ser uma fonte de alívio para a ansiedade. Mesmo que você coma rápido demais, tente permanecer com as pessoas até que elas terminem de comer. E você ganha estrelinhas na vida se todos aceitarem desligar a televisão nesse momento.


Espero ter ajudado você em alguma medida.

Façar sobre bulimia e compulsão alimentar nunca é fácil.

Mas a gente precisa.


Fome se espalha antes que o vírus na periferia paulistana.

Você fala e a gente escuta