Precisamos prosseguir

Olá, tudo bem? Bem não foi um ano exatamente fácil. Muitas tragédias foram acontecidas e se coloco assim é para dizer que não foram resultado do acaso, sempre tem gente por trás de coisas assim. Falo agora muito entristecida pelo que aconteceu em Paraisópolis, com 9 vidas abreviadas antes do tempo. Essa é a sensação, de revolta e muitas vezes até de impotência.

Mas não podemos parar, não é? Só que às vezes a gente para. Esse ano foi para mim de muito cuidado espiritual e psicológico, mesmo sem fazer terapia com um profissional. Encontrei refúgio na fé e entendi que nem sempre somos tão legais quanto a gente espera ser ou de fato é. De deixar de lado alguns medos e de deixar outras batalhas para amanhã. Já diziam os acadianos no filme, viva hoje e lute amanhã.

Foi o ano em que deixei muito a desejar em termos de cuidado, desses que se preocupa com o corpinho, com o movimento, com a alimentação, até mesmo com tudo aquilo que fazia para conviver com a bipolaridade e continuar sobrevivendo ao câncer. Por outro lado, me empenhei em manter esse espaço, com todo carinho para vocês. Nem sempre consegui como queria e deu uma sensação de que algo não vai bem porque não adianta escrever sobre saúde se a gente não consegue viver isso na nossa vida. E não deu para escrever mais.

Não foi fácil para ninguém, não é? Acompanhar as noticias de jornal, coisa que fazia com o pé nas costas, se tornou para mim um gatilho. Não sabia o que ia disparar aquela crise de ansiedade. Não consegui sequer escrever como deveria e muitas vezes me vi ausente de tudo, sem que me sentisse com energia para fazer diferente. Não é uma questão de desânimo, mas de uma baixa de energia que nem tenho palavras para descrever. E sei que muitas sentimos isso esse ano, seria estranho se fosse diferente.

As crises de bipolaridade já não são as mesmas, houve ganhos. Hoje consigo pedir ajuda, conversar, parar e me apoiar em remédios quando é preciso. Não corri, tentei andar, mas não sentia energia para fazer as coisas que fazia ou queria fazer quando o assunto era caminhar. Mesmo os tão famosos minutinhos que sempre falo por aqui.

Enegrecendo, a gente sabe que também não pode ser engolida pela culpa. A gente tentou mas compreende que há limites e se enterrar neles não ajuda. E não falo dessa coisa de se superar a qualquer custo, mas de compreender que às vezes não dá mesmo e para não fazer disso um sentimento de cobrança ou sofrimento.

Afinal o ano que vem sempre pode ser melhor. Esperança sozinha não muda nada, mas faz parte quando “combinaram de nos matar e nós combinamos de não morrer”. É sobre isso que quero falar aqui no ano que vem. O plano é mesmo não morrer e isso demanda alguma coisa que a gente tem de tirar de dentro, sempre antenadas com que as pretas estão fazendo coletivamente, sempre com otimismo, o que nada tem a ver com bobeira ou cegueira.

Não pela superação, não pelas curtidas, pela foto com a roupa de marca. Isso é muito clichê, mas falo pela vida. Passei todos esses anos quase sempre sem ouvir os mais velhos quando me diziam para que me cuidasse e agora que os anos me cobram por isso, é desse lugar que falo. Porque a gente conhece qual é o projeto deles, é a morte. De bala que seletivamente nos atinge, de tristeza, de inércia, de fome, de lutar. Essa é a perspectiva que sempre tenho em mente quando escrevo aqui, mesmo que muitos posts tenham um tom feliz, otimista demais.

E se busco escrever de outra maneira, de uma perspectiva outra que não o sofrimento é por pura teimosia, esperança, resistência. Mesmo que seja só uma postagem, uma foto, uma plano mirabolante para voltar pro triatlo. É apenas por acreditar na gente, que a gente pode e quer e consegue. Não por nada, só porque queremos e quando queremos, se quisermos. Escrever aqui é muito disso, é o que a vida deveria ser mas não é e enquanto não podemos, vamos sonhando e tentando.

Não gostaria de romantizar o que é ser uma mulher negra e forte, que anda por quilômetros, que carrega peso, que tem braços fortes. Não quero muito menos desrespeitar quem não está fazendo nada disso, afinal, não é confortável viver jogada às traças por conta de uma doença do corpo, da mente ou do coração. Quero apenas falar de rotas de fuga que deveriam ser consideradas e o direito ao movimento por sermos humanas, porque pode ser prazeroso e nos ajudar a lidar com esse mundo que quer nos matar. Já não falo de esporte, falo da vida, de poder descansar ou se mexer. E falo inspirada por duas mulheres em especial que mais tarde quero entrevistar aqui. Por enquanto, seguremos esse forninho.

Por isso aguardem novidades! O blog não vai parar no final do ano e tamos voltando toda terça, quinta e sábado num esquema todinho feito para gente pensar num 2020 com mais cuidado, movimento e estorinhas de treino para gente. É o esquenta para um ano que esperamos ser melhor, porque ninguém vai aliviar para o nosso lado.

De volta à ativa.

Você fala e a gente escuta