Saúde mental na quarentena: como cuidar de perto

Uma questão de saúde

Saúde mental na quarentena é muito mais que discutir o tédio. É sobre uma decisão estratégica para pensarmos no futuro. O ponto aqui é o enfrentamento a questões profundas que estruturam a nossa sociedade. Assim, é sobre construir políticas públicas que de fato chegam a quem precisa. Também é sobre água, moradia digna e direito à cidade, trabalho, saúde, educação e livre expressão da religiosidade e a defesa do estado laico.

É sobre aquilo que é concreto, ter leitos psiquiátricos disponíveis.

Ainda assim, e justamente por causa desse vácuo, o corre da saúde mental a gente faz no dia a dia, aprendendo umas com as outras. Veja por exemplo a questão da bipolaridade. Tem um número que sempre me assustou muito, o fato de que se leva em média 10 anos para que o transtorno seja corretamente diagnosticado.

O transtorno mata cerca de 15% dos pacientes que em alguns casos, dependendo de onde vem, sequer sabem o que tem. E embora isso seja um estigma, é correto dizer que no Brasil, bipolaridade é doença que só gente rica tem o “luxo” de ter. A maioria das pessoas tem que aprender a entorpercer o sofrimento, seja com comida, com bebida, com cigarro e até mesmo com sexo.

a saúde mental na quarentena é estratégica

Temos algumas experiências muito bem sucedidas, sobretudo em função da capacidade que movimentos negros têm de se organizar e de atuar, mesmo através de alguns indivíduos. Todavia, o panorama é de total desolação. Quem já viveu ou presenciou uma crise psiquiiátrica, conhece o desespero de não se poder fazer nada. Simplesmente não encontramos leitos e quando estão disponíveis, não temos como fazer tratamentos multidisciplinares à longo prazo.

Se já estávamos em um cenário apocalíptico antes, como cuidar da ssaúde mental na quarentena agora que “não podemos ficar doentes todos ao mesmo tempo”?Brinquei outro dia dizendo que a minha vontade era me trancar dentro de casa para comer pão azedo igual ao filme dos dez mndamentos. Porque o próximo passo, para as populações violentadas desse país é exatamente esse, a insanidade.

Por isso, com grande atraso, esse pequeno roteiro para você ajudar as coleguinhas.

Primeiro, conheça os fatores de risco. 

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As grandes catástrofes naturais como terremotos, também pode ser uma gatilho. Tudo que afeta a perspectiva de uma pessoa ou de um povo deve ser considerado. Não é por acaso que os jovens homens negros têm se destacado nas pesquisas.

A cartilha Óbitos por Suicídio entre Adolescentes e Jovens Negros, denuncia que entre 2012 e 2016 o número de vítimas brancas permaneceu estável, enquanto o das negras aumentou 12%. Com a pandemia e seus efeitos ao longo dos próximos meses e anos, além da recusa de as autoridades médias competentes em enfrentar a questão, essa curva pode continuar a subir ao longo dos anos.

Falar sobre saúde mental na quarentena é um assunto complexo, por que esse é um fenônemo profundo e complexo que pode acontecer com qualquer um de nós. Porém alguns grupos estão em situação mais vulnerável. Ainda falando sobre os transtornos como a bipolaridade, é sabido que a grande maioria das pessoas que morreram por suicídio era esquizofrênicas, borderline ou sofriam de depressão por exemplo.Ser homem e idoso, vivendo sozinho, pode ser um fator de risco. Sabemos também que os mais velhos são grupo de risco para o coronavírus, o que pede toda atenção nesse momento.

“A escuta ativa deve sempre estar presente nesses diálogos. Uma escuta ativa consiste em realmente ouvir e compreender o que o outro diz, não apenas esperar uma pausa para poder respondê-lo. Isso não significa, no entanto, deixar a pessoa falando sozinha.” Centro de valorização à vida.

Reconheça os sinais de alerta

Conviver com doêncas e dores crônicas ou que vem acompanhadas de grande estigma como o câncer também pode ser um gatilho importante. Fique de olho se no meio desse furação que é a quarentena e a pandemia, tudo simplesmente parecer muito bem. Esse silêncio quando a tristeza é normalmente esperada é um sinal de alerta.

“Se há uma desconfiança, é importante que se converse diretamente com a pessoa que está sofrendo. Um diálogo aberto, respeitoso, empático e compreensivo pode fazer a diferença.” Centro de valorização à vida.

Por causa da pandemia e mesmo agora na quarentena, estaremos expostos a sentimentos de ansiedade e angústia, muitos buscarão refúgio no consumo desemfreado de substâncias entorpecentes. Esse também é um dos fatores de risco, bem como a irritabilidade, a impulsividade aumentada e uma desesperanção sem tamanho. O isolamento emocional também pode ser um sintoma. Se a pessoa sumir, confira o que está acontecendo.

É certamente verdade é que o silêncio e o estigma não nos ajudam a falar sobre a saúde mental na quarentena. Por outro lado, ainda se acredita que a pessoa que pensa ou comete suicídio quer apenas chamar atenção. Na realidade, esse é um dos maiores sinais de alerta que precisamos levar muito a sério. Quem já tentou antes pode tentar de novo. E quem pensa pode de fato fazer.

Do mesmo modo, a incapacidade real ou imaginada de lidar com os efeitos da pandemia pode ser um fator de risco a ser considerado. Tenho ouvido que, mais ou menos hora, as pessoas irão entrar em contato com o vírus, por exemplo. Esse é o tipo de estória que pode levar alguém que já está vulnerabilizado a se expor ao absurdo da situação, saindo à rua, bebendo até cair. Quando o melhor seria realmente ficar em casa.

Transforme a linguagem em ação

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Se algu´m próximo a você faz parte dos grupos mais vulneráveis, é preciso falar sobre o assunto abertamente, sobretudo com os jovens. Porém, é preciso ir além disso. A ação precoce ´de quem convive com a pessoa que está pensando em se matar pode salvar sua vida. Uma das recomedações mais eficazes são retirar do alcance da pessoa instrumentos que ela possa usar para se ferir. Isso é muito importante porque não ter acesso a meios violentos pode fazer a diferença. Essa decisão deve ser feita com muito cuidado, de forma assertiva e transparente, para que se evite chemar a atenção sobre outros possíveis métodos de cometer suicídio.

No mundo ideal, seria possível encaminhar a pessoa para o tratamento com psiquiatra, psicólogos e se necessário, internação. Em tempos de quarentena, o cenário é ainda pior. Mas podemos tirar vantagem de uma situação adversa, afinal uma pessoa que pensa em se matar precisa de companhia para ter chance de se machucar. 

Então, as pessoas também tem aproveitado para se comunicar através de mensageiros como o whatsapp. Uma das coisas bacanas que você pode fazer se estiver longe da pessoa que precisa de ajuda é fazer ligações em vídeo, por exemplo. Assim você pode avaliar se a pessoa está cuidando de sua casa e de si mesmo, por exemplo. 

Além disso, informe sobre a possibilidade de sempre poder conversar com você, caso seja possível. Infelizmente, não podemos contar com os atendimentos presenciais no CVV (Centro de Valorização à Vida) nesse momento, mas o número 188 continua funcionando, 24 horas por dia em todo o país. Já a Abrata (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos) que atende a cidade de São Paulo, atende pelo telefone (11) 3256-4831 entre as 13 e 17h00 durante a semana.

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