Se abrindo para o mundo: como conviver com a bipolaridade durante a pandemia?

A bipolaridade pode ser bastante debilitante, é um diagnóstico complicado tanto para quem recebe, quanto para seus familiares, amigos e eventualmente colegas de trabalho. Isso tem me preocupado muito porque os conteúdos que falam sobre saúde mental, até onde estou informada, não têm dado conta desse recado.

E a pandemia pode ser um importante fator de gatilho para mais uma crise. Estamos preocupadas com as contas em curto, médio e longo prazo. As taxas de emprego vão cair. Nem todas as crianças estão na escola. Não é uma questão de tédio ou “apenas” ansiedade.

A Abrata (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos) publicou um texto muito interessante sobre 3 sintomas de transtorno bipolar sobre os quais ninguém quer falar.

Isso me motivou a escrever sobre algumas sugestões para lidar com eles durante a pandemia. E a gente começa dizendo que antes de qualquer coisa, é preciso procurar tratamento. E isso envolve médico, terapeuta e eventualmente o uso de remédios. Tamb´´em sabemos que o tratamento não está disponível para todo mundo. Então ferramentas como o Mapa da Saúde Mental podem ser um primeiro passo para conseguir alguma orientação.

1. Você já agiu como se fosse outra pessoa?

Quando falamos de comportamentos perigosos, podemos considerar por exemplo de gastar além da conta quando não se tem dinheiro. Ou ainda, se relacionar com muitos parceiros como um comportamento que antes não existia. Entendo como qualquer situação em que nos colocamos em risco, sem pensar.

A agressividade e a violência tem tudo a ver com isso. São mais fáceis de identificar, mas nem sempre as pessoas associam isso à bipolaridade. Obviamente, tem muita gente violenta que não é bipolar e ao mesmo tempo nem todo bipolar é agressivo. Mas esses sintomas podem acontecer e é preciso muito cuidado para lidar com essas situações. Inclusive por que essa violência pode ser direcionada à própria pessoa com o transtorno.

Entenda o que inicia suas crises. Fique atenta se sentir que algo não está bem e algum pensamento agressivo ou violento aparecer de repente na sua mente. Os desejos de fazer compras, a impulsividade, o desejo de consumir substâncias lícitas e ilícitas fazem parte desse quadro. E quando isso acontecer peça ajuda a quem está perto. Considere que talvez seja preciso restringir seu acesso á objetos cortantes, bebidas, remédios e até mesmo notícias que possam dar início ou aprofundar a crise que se aproxima.

2. Você já teve alucinacões e delírios?

É muito difícil não apenas se tratar, é muito complicado receber o diagnóstico. E mesmo tendo acesso à tudo isso, também é improvável que se tenha informação sobre a doença, os sintomas, os remédios. Pouco se fala por exemplo sobre como a psicose pode fazer parte do cotidiano dos pacientes.

Psicose é a perda de conexão com a realidade e pode levar a delírios, crenças conspiratórias, alucinações visuais e auditivas. Podem ser passageiras ou persistentes. Você também pode acreditar que está sendo traída ou perseguida, que tem qualidades ou defeitos que não refletem a realidade. Causa muita angústia e pode ser muito debilitante para quem está passando por isso como paciente ou como cuidadora, por exemplo.

Fale com seus amigos e familiares sobre o que está acontecendo. Isso pode ser muito benvindo para que as relações pessoais não sejam afetadas por uma crise. E o mais importante, com os profissionais que te acompanham se puder. Assim poderão ser recomendadas terapias voltadas para esse sintoma.

3. Você tem dificuldade de aprender?

A palavra cognição tem a ver com o aprendizado e todas as ferramentas que usamos para isso como a memória, a atenção, o pensamento, o raciocínio, a criatividade, a linguagem. Qualquer alteração nesses mecanismos podem afetar gravemente o cotidiano de uma pessoa com transtorno bipolar. Muitas vezes porque quem é paciente não relaciona esse sintoma ao transtono, sente culpa ou não sabe como lidar com esse sintoma.

É mais fácil falar do que fazer. A vergonha de não conseguir aprender e memorizar as coisas é difícil de encarar. Mas todo mundo tem limites, mesmo as pessoas que são “normais”. E uma vez que você aceita essas limitações, seu mundo pode mudar. Inclusive reduzindo seus níveis de ansiedade por “esconder” um “problema” das pessoas que podem te ajudar. Porque é assim que você pode buscar soluções e também pedir ajuda.

Você fala e a gente escuta