Setembro amarelo em movimento

Setembro amarelo é o tipo de assunto que sempre penso em escrever, mas sempre vou adiando. Não por desinteresse pela pauta, mas pelo profundo respeito pelo tema. Pelo tamanho do tabu que o cerca e por entender mais do que nunca que estamos falando de vidas, nesse caso especialmente de pessoas indígenas e idosas. Porém, o número de casos vem aumentando e nós, mulheres negras também precisamos discutir abertamente o tema.

Hoje, dia 10 de setembro é uma ocasião oportuna para falar. O Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio é uma data que não costuma ser entendida como um debate de raça, ainda que a população jovem indígena seja a vítima primeira dessa violência com atenção para a faixa etária que vai dos 10 até os 29 anos. A imagem a seguir, retirada do Boletim Epidemiológico Suicídio. Saber, agir e prevenir mostra que “44,8% dos suicídios ocorridos na população indígena foram cometidos por adolescentes (10 a 19 anos), valor oito vezes maior que o observado entre brancos e negros (5,7% em cada) nessa mesma faixa etária”.

Quando se fala sobre mulheres, o mesmo boletim também mostra que “a análise das notificações de tentativa de suicídio em mulheres mostrou que 53,2% eram brancas e 32,8% negras (pardas + pretas). Quanto à escolaridade, 28,5% delas apresentavam ensino fundamental incompleto ou completo e 25,5% ensino médio incompleto ou completo. A ocorrência de tentativa de suicídio se concentrou nas faixas etárias de 10 a 39 anos, representando 73,1% dos casos. A presença de deficiência/transtorno foi identificada em 25,5% dessas mulheres.”

Banzo: Setembro amarelo e seus desafios

Essa data é uma oportunidade única de conversarmos sobre o tema, mas como? Para todos aqueles que não compreendem porque alguém desejaria não mais viver, poderíamos falar longamente sobre as inúmeras causas. O racismo (sobretudo em sua modalidade institucional), o machismo e suas consequências. Seria pouco produtivo aqui, tomar qualquer conclusão a respeito. Afinal precisamos fazer isso de forma coletiva.

Entretanto, os números acima sugerem que esse debate também é urgente entre mulheres negras. Precisamos, por exemplo, desconstruir a ideia de que as vítimas sempre apresentam transtornos afetivos ou emocionais. Pode acontecer a qualquer uma de nós, a qualquer momento. E isso não demonstra fraqueza ou falta de força de vontade, mas sim que aquela pessoa precisa de atenção especializada e cuidado.

No caso de mulheres negras, a exposição ao racismo e sexismo, podem ser fatores de risco muito importantes e que não podem ser negligenciados. Toda campanha de prevenção ao suicídio precisa considerar que o sofrimento causado por causa dessas violências também mata através do suicídio. Quando uma pessoa negra (ou indígena) tira a própria vida, não é ela quem faz isso. Essa é a grande questão a ser debatida.

Se a prevenção não for um tabu, mais e mais vidas poderão ser salvas. É preciso ficar atenta aos sinais como isolamento prolongado ou recorrente, expressão de sentimentos negativos sobre si mesma, dificuldade ou desinteresse em realizar tarefas cotidianas, menosprezo à higiene pessoal, consumo exagerado de bebidas alcoólicas, interesse por notícias sensacionalistas.

É preciso entender que nada disso é uma chantagem emocional ou brincadeira. A permanência desses sintomas por mais de duas semanas é um dos indicativos que a atenção precisa ser redobrada. Sempre com muita cautela e cuidado, porque a pessoa em risco não está fazendo isso porque quer e não deve ser julgada. Nunca menospreze as motivações de quem está em risco (ainda que não façam sentido para você) e esteja pronta a escutar com compreensão e paciência.

E não tente resolver o problema tentando levar a pessoa em risco para festas ou recomendando que faça amigos se não tem esse hábito ou se sente solitária. Dizer que existe um mundo lá fora não é o suficiente, é preciso antes de tudo ouvir e cuidar, de acordo com o que a pessoa verbaliza ser bom para ela. Procure entender o que ela gosta de fazer antes de qualquer convite.

Setembro amarelo em movimento

Quando o assunto é prevenção ao suicídio, não podemos ser ingênuos. Não há uma única causa, assim como não há uma única solução. Apesar de alguns grupos, como idosos, indígenas e população lbgttqia+ serem vitimadas de forma aguda pelo problema, todas nós precisamos estar atentas ao problema. Inclusive nos comprometendo a buscar ajuda se sentirmos que algo não vai bem.

E nesse momento, uma caminhada pode ser uma boa pedida se você está em risco ou se precisa ajudar alguém querida. Avalie com muito cuidado se a pessoa, ou você mesma, pode sair de casa. Se existe perto de você algum lugar calmo e arborizado que possa servir de cenário para uma conversa tranquila. A atividade não precisa ter mais que quinze minutos e ter a oportunidade de conversar é o principal objetivo.

E não se esqueça, você pode fazer isso sempre.

Serviço

Entenda como escrever (e falar) com responsabilidade sobre o tema. E tenha sempre à mão informações sobre os serviços de saúde disponíveis como CAPS e Unidades Básicas de Saúde, SAMU 192, UPA, Pronto Socorro e Hospitais.

Créditos: Rádio Clube Joinville

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