Transtornos alimentares quando nossos estômagos estão vazios

Precisamos falar sobre transtornos alimentares. Deixando a coisa bem preta antes. Em primeiro lugar não estou assistindo ao BBB. E não pretendo fazer isso agora. Mesmo que compreenda a importância do programa. Entretanto uma manchete me chamou atenção. Uma das participantes tem sido associada a transtornos alimentares. Por isso fiquei me perguntando se vamos falar sobre o assunto do ponto de vista da fome.

Quando nossos estômagos estão vazios temos medo que talvez nunca mais comamos.

AUDRE LORDE, Uma litania para a sobrevivência

Uma litania para a sobrevivência

Então, quando vamos falar sobre transtornos alimentares com as milhões de pessoas que passam fome? Qual será o impacto do momento que estamos vivendo para as gerações futuras? Obviamente precisamos pensar em colocar comida na mesa. Antes de tudo. Mas considerando algumas questões importantes.

Quem tem fome, tem o direito à comida de boa qualidade. Ultraprocessados são mais acessíveis e mais baratos mas é isso mesmo que a gente merece comer? Que outras práticas alimentares podemos resgatar de nossos antepassados nesse processo? Será que a horta não é uma delas? Mas quem tem ânimo, conhecimento e terra para plantar? Ou ainda, o consumo de orgânicos? Afinal comida também é direito à terra para viver e plantar? E ter tempo e espaço para plantar, quem tem? Infelizmente tenho mais dúvidas que respostas à oferecer.

Transtornos alimentares como a compulsão alimentar e insegurança alimentar tem alguma relação?

A relação entre fome e transtornos alimentares pode ser bastante conhecida por nós. É o que chamo de efeito geladeira. Um de seus sintomas é medo de que possamos passar fome novamente, como escreve Audre Lorde. Parece muito evidente que a ideia de que a comida possa faltar ou sua falta de fato é muito real em muitos lares. E sentimos o efeito disso, em diversos tempos. Hoje, amanhã, anos depois. Ou a fome não seria um fator a ser considerado como um bagunçador de nossa relação com a comida?

Todavia essa associação parece ser um objeto novo para a ciência. Coisa que me assusta.

Janet Lydecker, pesquisadora que estudou o universo norte-americano declarou que “nossos achados sugerem que a insegurança alimentar está associada à bulimia nervosa e também sugerem que a associação da insegurança alimentar com a bulimia nervosa é semelhante à da compulsão alimentar. Esses achados destacam a necessidade de maior atenção clínica e de pesquisa às associações entre insegurança alimentar e transtornos alimentares que incluem a compulsão alimentar para informar a prevenção e o tratamento do transtorno alimentar.“.

De mais ou de menos

Pode ser o medo de comer quando não se sabe o que vai acontecer no dia seguinte. Pode ser o jejum, para que outras pessoas da família possam se alimentar. Ou ainda, uma vez que se tenha pleno acesso à comida. o consumo seja “de mais” ou “de menos”. E aqui falo especificamente da anorexia e da compulsão alimentar. Seguida ou não de mecanismos de compensação para “não engordar” que caracterizam a bulimia, como fazer exercícios sem parar ou provocar vômito.

Ainda assim, do ponto de vista dos transtornos alimentres esse assunto agora não é tão urgente, sabemos. A fome é o problema a ser vencido antes de qualquer coisa. Porém esse é um panorama que ainda precisaremos encarar. Sem saber se o racismo que provoca a fome será considerado como causa dos transtornos alimentares.

Lembrando que nem toda prática alimentar está associada à transtornos alimentares. Você pode comer “de mais” ou “de menos”. O problema é quando a comida passa a ser um fator de sofrimento mental, passa a mudar sua rotina social, por exemplo. Foras que, associar alguém à qualquer transtornos mesmo colocando panos quentes (dizendo que pode não ser assim, que é complicado fazer um diagnóstico através de uma tela) é uma grande violência e pode agravar e muito o problema se ele existe.

Precisamos conversar muito mais sobre transtornos alimentares. Mas do nosso ponto de vista e com uma maior profundidade do que tem sido feito por essa mídia imediatista, preocupada com a excrescência do vazio.

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